
“Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, sei a verdade e sou feliz”.
(Alberto Caeiro)
Pense no que é liberdade. Se distanciar do poder e da mentira
vã do dinheiro, deixando prevalecer uma potência sentimental do
encontro do homem com seu verdadeiro estado natural, sem
vínculo, direção e possessão?
Agora, em uma linguagem prática, se pergunte: Você abandonaria (de verdade) a
zona de conforto em que vive, deixaria sua casa com piscina, tiraria seu notebook e iPod
da mochila pra colocar livros e roupas e seguiria para longe, sem
dinheiro, identidade, sem avisar seus pais ou dar uma balada de
despedida pros amigos, e sem seu carro automático, porém a pé, só para poder encontrar sua essência natural?
Christopher McCandless sim.
No final da década de 80 e início dos anos 90, depois de sua formatura aos 22 anos, Chris doou sua poupança, abandonou sua família, seu carro, destruiu sua identidade, seus cartões de crédito e seguridade, queimou o que lhe sobrou de dinheiro e partiu em busca daquilo que considerava sua liberdade.
Queria provar, assim, que o ser humano precisa de pouco para viver.
Sem dinheiro, viajou por dois anos pelos lugares mais belos e inóspitos da América, trabalhou daqui e dali, conheceu pessoas que se afeiçoaram a ele, e partiu para um plano sonhador: ir para o Alasca onde pretendia viver em meio à natureza por sua conta e risco.
Uma história real.
O que McCandless estava determinado a conseguir em sua vida como andarilho e sua
dominação durante sua emersão no Alasca, foram questões que instigaram o escritor Jon Krakauer na época. Jornalista que também teve um período de isolamento e questionamento na juventude, Krakauer pesquisou a aventura e refez o difícil percurso do rapaz pelos EUA, entrevistou as pessoas com quem ele cruzou, nas quais deixou impressões profundas, e
examinou as pequenas sortes e azares que culminaram num fim. A fascinação foi transformada em um livro (Into the Wild) que identifica em Christopher um idealismo e
uma coragem ilimitados na busca por seu argumento de pureza: uma alma na natureza selvagem.
Dirigida por Sean Penn, esta adaptação do livro para o cinema, Na Natureza Selvagem, materializa o espírito que moveu Christopher McCandless, seus ideais que passam por conceitos desenvolvidos por beatniks, budistas, epicuristas e tantos outros que crêem na
felicidade e liberdade, porém longe da realidade vivida pela maioria. Visam um mundo além das forças materiais e metafísicas, numa evidente conciliação com o natural e
primitivo, de onde o homem surgiu.
O filme ainda convém em mostrar o que tanto inspirava Christopher, livros de Jack London e Henry Thoreau, grandes romancistas da vida selvagem.
O roteiro também é assinado por Sean Penn, que se guiou tanto pelo livro quanto por suas pesquisas e visões ao refazer todo o percurso da viagem. O roteiro, assim como o livro, mostra o jovem como um herói, utópico e, paradoxalmente, real. Há uma empatia gigante no
filme compartilhada por todos. É o fato de o ser humano ter seus desejos e reflexões cada vez mais esmagados por uma realidade que não dá espaço para simplesmente ir embora.
A fotografia do longa enfatiza a relação homem e natureza, assim como a trilha sonora, de Eddie Vedder (Pearl Jam) composta especialmente para o filme, que reproduz com acerto o intimista e o rústico das cenas. São músicas e imagens que formam exatamente o que a grande angular de McCandless assimilou. Uma câmera que explora todas as possibilidades visuais, acompanhando Chris, seus gestos, seu olhar e sua alegria, tão de perto, num tom às vezes quase documental.
O que impressiona no jovem andarilho é sua determinação, força física e sentimento para
estar sozinho, sem vínculos, sem cronogramas. Sua rebeldia não está apenas na vontade de trilhar um caminho menos convencional ou em se negar a obedecer aos parâmetros da sociedade em geral, mas na sua entrega ao acaso, deixando a alma se recolher ao primitivo. Chris, ao se negar planejar seu caminho, deixa de ser um aventureiro, esportista, atlético e bem programado dos dias de hoje, que corre maratona cercado de água ou que escala montanhas guiado por GPS. Chris não tem nem mapas e nem comunicação.
Apenas livros.
A América já sonhou com um mundo assim, no qual o verbo "ser" sobreporia o verbo "ter". Mas a visão que se faz hoje em dia não convém em ser assim, utópica, em meio a um passado que pesa sobre qualquer sonho e revolução. Uma sociedade que não colhe aquilo que se dispõe às margens.
Mas há uma prosperidade no mundo. E a lógica fez a espécie avançar: o acúmulo de técnica,
de conhecimento e de estratégia. Chris, já instalado em seu destino, o Alasca, não usa mapas. Se não os tivesse rasgado, saberia que poderia ter cruzado em outro ponto um rio que sepôs como obstáculo. Sem sabê-lo, teve de estender sua estada no local até sucumbir a um trágico e melancólico fim.
Ao abandonar a vida que é familiar a nossa, Chris dá espaço ao nascimento de Alexander
Supertramp. Um renascer seu, uma epifania que se autonomeia, uma nova forma de respirar. Assim se divide o filme, nos estágios da vida de Alexander: do início ao amadurecimento e, enfim, o adulto. Este, que já coleciona certa visão angular e conhecimento, descobre
hoje o que as primeiras vivências no mundo retrataram depois, na forma da civilização atual. O que se sucede a um jovem sonhador em busca de respostas quando, depois
do tempo lhe dizer adulto, enxerga na sabedoria da experiência que não adianta mais de nada questionar?
Se não está em sociedade, está sozinho. Suas idéias, conhecimentos, histórias, sentimentos são só seus. E assim, na total vastidão e liberdade geográfica, Chris se vê preso. E esboça uma resposta: “a felicidadesó existe se for compartilhada”.
Mesmo que essa definição chegue tarde demais...
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