
Os créditos iniciais já avisam: o filme é baseado numa história real, que só poderia ter acontecido por culpa do destino, nesse caso, uma enorme falta de sorte. Mais um representante da nova safra do cinema latino-americano, O Banheiro do Papa, comprova a participação do Uruguai nessa geração que tem chamado a atenção.
1988. A incrível história começa poucas semanas antes da visita do papa João Paulo II a Melo, cidadezinha uruguaia que faz fronteira com o Brasil. Um furor é causado na população, mas tamanha comoção vai além da religiosidade. Dizem que a visita atrairá 20 mil brasileiros ao lugar. Ou mesmo 40 mil. 60, dizem alguns. Uma oportunidade única para seus pobres habitantes, que tentam suas melhores idéias para ganhar dinheiro com os fiéis que peregrinarão até lá. A esperança de uma vida melhor, possível em um só dia de visita, faz com que a maioria use toda sua economia comprando comida ou lembranças para vender no dia da missa.
Beto, um dos moradores, vive dificilmente contrabandeando produtos brasileiros. Ele atravessa a fronteira até duas vezes ao dia de bicicleta velha, carregando porcarias e fugindo dos oficiais aduaneiros. Enquanto toda gente decide montar barracas de salgados a lingüiças para alimentar os brasileiros enquanto o papa discursa, Beto, numa epifania, imagina que tanta comida há de seguir seu caminho inevitável. Seu plano: construir um banheiro. E lá vai o personagem arrumar dinheiro para os blocos, canos, porta de luxo e, por fim, um vaso. Mas esse ele vai buscar ali, rapidinho, do outro lado da fronteira.
Tanta expectativa pela vinda do Papa foi causada pela mídia local que divulga uma quantidade absurda de turistas esperados. Quando a expectativa é muita, a decepção acaba sendo maior. A busca desenfreada do protagonista acaba gerando conflitos maiores em sua vida. E a quantidade de brasileiros peregrinos, quem diria, foi mínima.
O filme apresenta uma narrativa envolvente por sua temática, estética e desempenho dos atores. Com uma câmera que balança bastante em torno dos personagens e fornece a eles um olhar extremamente carinhoso e delicado, O Banheiro do Papa é um filme comovente pela rápida identificação que obtém com o público. Outro mérito é, em vez de partir para o simples dramalhão, trata o tema de maneira leve, ora hilariante, ora triste. Suas sutis observações sobre a fé, o capitalismo, a sociedade e a mídia não parecem nunca lições de moral.
Há algo de metafórico nesta visita do Papa (este agente do mundo desenvolvido e iluminado) que provoca tanta expectativa na população local, um sonho destinado ao fracasso desde o momento em que surge. Os diretores abandonam qualquer discurso de fundo antropológico e se dedicam a simplesmente encenar. Há um espaço para manifestação do popular: casas apertadas, velhas e feias, cômodos sem porta e chãos de terra batida. Por mais que se tente dar brilho ao sonho, há algo naquele estado de pobreza e dificuldade que é impossível ignorar. Visto assim, de frente, sem meias-verdades e sets construídos em estúdio, talvez diga muito mais sobre aqueles personagens do que a encenação de seus traços.
Difícil, por exemplo, não receber com um sorriso melancólico a seqüência em que Beto realiza na imagem aquilo que na sua realidade se torna cada vez mais distante: trocar sua velha bicicleta por uma moto. Nesse pequeno momento de fantasia, não há brilho na câmera que baste para expressar a alegria do personagem.
Brilho, assim, só existe este em meio a todo resto nublado e cinza, onde os personagens pobres e tristes ficam em primeiro plano, numa relação direta com a câmera. O cenário se espalha pelo fundo (no caso, pilhas e pilhas de comida nunca comercializada), e um jornalista da televisão, em toda sua miopia social, insiste em dizer que o evento levaria o país e a população de Melo a um “futuro glorioso”.
O filme se faz contemporâneo, do seu tempo, pela evidência da própria imagem, com montagem ágil, fotografia e câmera na mão que a tudo olha, mas com foco nos humanos. Os primeiros minutos nos propõe um certo ritmo, mais lento, com pequenos acontecimentos que acabam sendo grandes para aquelas pessoas comuns. É introduzida a maneira como essas pessoas serão tratadas, o tipo de olhar lançado sobre elas. E é um olhar generoso, que respeita o tempo e a rotina da cidade. Que não esconde os erros do protagonista, mas se concentra em seus acertos. É um olhar que se incorpora ao filme, tornando-se parte dele, não lançando nenhum tipo de julgamento.
Na medida em que a chegada do papa se aproxima, fareja-se a tragédia, com Beto ultrapassando seguidamente a própria medida, fazendo de tudo por um sonho que mostra-se cada vez mais distante. Apesar de terem sido traídos pelo destino, os personagens não se deixam abater. E Beto, que caminhou à beira do abismo, é resgatado, nos deixando sem saber quem é o herói. Se é ele, sua família, a cidade ou, quem sabe, ninguém.
Em um fim que procura timidamente quebrar uma expectativa inicial, se não vemos o êxito estampar nossa face, encontramos um olhar de fracasso pouco freqüente no cinema. Porém aqui não é algo limitador, mas sim propulsor do início de uma nova jornada. Se no resto do mundo não, em O Banheiro do Papa há sim o direito de sonhar e fracassar.
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